O RAPAZ QUE SE TORNOU RICO Conto Popular

  • Slides: 6
Download presentation
O RAPAZ QUE SE TORNOU RICO Conto Popular da Guiné Equatorial Áudi o Era

O RAPAZ QUE SE TORNOU RICO Conto Popular da Guiné Equatorial Áudi o Era uma vez um rapaz que so tinha uma choc a, uns anzo is e as armadilhas que herdou do seu pai. Um dia, foi dar uma olhada nas armadilhas e encontrou um macaquinho 1 preso e desatou-o. Quando o levava a aldeia, encontrou-se com uma velha numa curva do caminho e esta disse-lhe: — Meu filho, digo-te a verdade: desde a manha que ainda na o comi e que regresso do bosque sem saber o que vou po r ao fogo. Da -me, por amor de Deus, esse macaco. Eu tambe m te ajudarei noutra ocasia o. O rapaz teve compaixa o dela e entregou-lho. A velha disse-lhe: — Como prova do meu agradecimento, entrego-te tre s tochas e com elas fara s o seguinte: pora s uma armadilha na beira do caminho do rio ou na beira do caminho que apanhas para ir pescar ao sul da aldeia. Depois de pores a armadilha e arma -la, pela noite, depois de dormires, escutara s como se algo teria sido preso; enta o, pegas numa tocha, apenas em uma, e vai ver. Deves levar para a aldeia o que encontrares. Procedera s sempre assim, de acordo com o nu mero de tochas. Entendido? O rapaz disse que sim. Ao chegar a casa, agiu como lhe recomendara a velha e po s uma armadilha. Pela noite, pegou numa tocha quando escutou a armadilha a disparar. Ao chegar, encontrou um pacote. Pegou nele e levou-o a 2 aldeia. Ao abri-lo, viu que dentro havia uma casa e um carro. O rapaz po s outra armadilha no segundo dia, como lhe recomendaram. Ao ouvir de novo como algo era preso, pegou na segunda tocha e saiu. Chegou outra vez [ao lugar] e encontrou outro pacote. Pegou nele e levou-o a aldeia. Ao abrir o pacote, viu que tinha dinheiro. A sua casa encheu-se de di- nheiro. O rapaz tornou-se rico. Depois de po r a terceira e u ltima armadilha, voltou a aldeia. Pela noite, ouviu como se algo fora preso. Ao ir ao lugar, encontrou uma mocinha que era muito bonita. O rapaz levou-a a aldeia. A sua situac a o ficava assim: tinha dinheiro, riquezas (casa, carro) e uma mulher beli ssima. Passaram-se os anos e o rapaz viveu feliz ate que um dia disse: — Enta o! Hei-de contentar-me apenas com estes bens? Creio que, se ponho uma quarta armadi- lha, possuirei outros mais. Dito e feito. Foi de novo e po s a quarta. Foi dormir. Pela noite, ao ouvir pum!, disse: — Sem du vida que o mundo inteiro caiu na minha armadilha. O rapaz foi ver [a armadilha]. De longe, viu um ponto brilhante na obscuridade, mas, ao aproxi-mar-se, ouviu uma voz que lhe dizia: — Rapaz, despacha-te, que tenho frio! Ele ficou pasmado e gritou: — Quem fala assim, como a velha que, um dia, encontrei no bosque? ! Enta o, viu-a de perto, com o cesto nas costas e o macaquito nos brac os. Ela disse: — Meu filho, so te dei tre s tochas. Por teres acrescentado a quarta, venho devolverte o macaco. Portaste-te como a gerac a o actual. Querias ter mais do que ja tinhas. AEF | Comemoração do Dia da Língua Portuguesa | 05 -05 -2020 1

O MENINO QUE ESCREVIA VERSOS Conto Popular de Moçambique Áudi o De que vale

O MENINO QUE ESCREVIA VERSOS Conto Popular de Moçambique Áudi o De que vale ter voz  se só quando não falo é que me entendem?   De que vale acordar  se o que vivo é menos do que sonhei?   (Verso do menino que fazia versos)  — Ele escreve versos!  Apontou o filho, como se entregasse criminoso na esquadra. O médico levantou os olhos, por cima das lentes, com o esforço de alpinista em topo de montanha.   — Há antecedentes na família?   — Desculpe doutor?   O médico destrocou-se em tintins. Dona Serafina respondeu que não. O pai da criança, mecânico de nascença e preguiçoso por destino, nunca espreitara uma página. Lia motores, interpretava chaparias. Tratava bem, nunca lhe batera, mas a doçura mais requintada que conseguira tinha sido em noite de núpcias:   — Serafina, você hoje cheira a óleo Castrol.   Ela hoje até se comove com a comparação: perfume de igual qualidade qual outra mulher ousa sequer sonhar? Pobres que fossem esses dias, para ela, tinham sido lua-de-mel. Para ele, não fora senão período de rodagem. O filho fora confeccionado nesses namoros de unha suja, restos de combustível manchando o lençol. E oleosas confissões de amor.   Tudo corria sem mais, a oficina mal dava para o pão e para a escola do miúdo. Mas eis que começaram a aparecer, pelos recantos da casa, papéis rabiscados com versos. O filho confessou, sem pestanejo, a autoria do feito.   — São meus versos, sim.   O pai logo sentenciara: havia que tirar o miúdo da escola. Aquilo era coisa de estudos a mais, perigosos contágios, más companhias. Pois o rapaz, em vez de se lançar no esfrega-refrega com as meninas, se acabrunhava nas penumbras e, pior ainda, escrevia versos. O que se passava: mariquice intelectual? Ou carburador entupido, avarias dessas que a vida do homem se queda em ponto morto?   Dona Serafina defendeu o filho e os estudos. O pai, conformado, exigiu: então, ele que fosse examinado.   — O médico que faça revisão geral, parte mecânica, parte eléctrica.   Queria tudo. Que se afinasse o sangue, calibrasse os pulmões e, sobretudo, lhe espreitassem o nível do óleo na figadeira. Houvesse que pagar por sobressalentes, não importava. O que urgia era pôr cobro àquela vergonha familiar.   Olhos baixos, o médico escutou tudo, sem deixar de escrevinhar num papel. Aviava já a receita para poupança de tempo. Com enfado, o clínico se dirigiu ao menino:   — Dói-te alguma coisa?   —Dói-me a vida, doutor.   O doutor suspendeu a escrita. A resposta, sem dúvida, o surpreendera. Já Dona Serafina aproveitava o momento: Está a ver, doutor? Está ver? O médico voltou a erguer os olhos e a enfrentar o miúdo:   — E o que fazes quando te assaltam essas dores?   — O que melhor sei fazer, excelência.   — E o que é?   — É sonhar.   AEF | Comemoração do Dia da Língua Portuguesa | 05 -05 -2020 2

Continuar a ouvir Serafina voltou à carga e desferiu uma chapada na nuca do

Continuar a ouvir Serafina voltou à carga e desferiu uma chapada na nuca do filho. Não lembrava o que o pai lhe dissera sobre os sonhos? Que fosse sonhar longe! Mas o filho reagiu: longe, porquê? Perto, o sonho aleijaria alguém? O pai teria, sim, receio de sonho. E riu-se, acarinhando o braço da mãe.   O médico estranhou o miúdo. Custava a crer, visto a idade. Mas o moço, voz tímida, foi-se anunciando. Que ele, modéstia apartada, inventara sonhos desses que já nem há, só no antigamente, coisa de bradar à terra. Exemplificaria, para melhor crença. Mas nem chegou a começar. O doutor o interrompeu:   — Não tenho tempo, moço, isto aqui não é nenhuma clinica psiquiátrica.   A mãe, em desespero, pediu clemência. O doutor que desse ao menos uma vista de olhos pelo caderninho dos versos. A ver se ali catava o motivo de tão grave distúrbio. Contrafeito, o médico aceitou e guardou o manuscrito na gaveta. A mãe que viesse na próxima semana. E trouxesse o paciente.   Que ele mesmo assumiria as despesas. E que seria ali mesmo, na sua clínica, que o menino seria sujeito a devido tratamento. E assim se procedeu.   Hoje quem visita o consultório raramente encontra o médico. Manhãs e tardes ele se senta num recanto do quarto onde está internado o menino. Quem passa pode escutar a voz pausada do filho do mecânico que vai lendo, verso a verso, o seu próprio coração. E o médico, abreviando silêncios:   — Não pare, meu filho. Continue lendo…  Mia Couto, em “O fio das missangas”. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.   Na semana seguinte, foram os últimos a ser atendi dos. O médico, sisudo, taciturneou: o miúdo não teria, por acaso, mais versos? O menino não entendeu.   — Não continuas a escrever?   — Isto que faço não é escrever, doutor. Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida — disse, apontando um novo caderninho — quase a meio.   O médico chamou a mãe, à parte. Que aquilo era mais grave do que se poderia pensar. O menino carecia de internamento urgente.   — Não temos dinheiro — fungou a mãe entre soluços.   — Não importa — respondeu o doutor.   AEF | Comemoração do Dia da Língua Portuguesa | 05 -05 -2020 3

A COMADRE MORTE in. Contos Populares Portugueses, de dolfo Coelho  Havia Áudio um homem que

A COMADRE MORTE in. Contos Populares Portugueses, de dolfo Coelho  Havia Áudio um homem que tinha tantos filhos, tantos, que não havia ninguém na freguesia que não fosse compadre dele; e vai a mulher teve mais um filho. Que havia o homem de fazer? Foi por esses caminhos fora a ver se encontrava alguém que convidasse para compadre. Encontrou um pobrezito e perguntou-lhe se queria ser compadre dele.   — Quero; mas tu sabes quem eu sou?   — Eu sei lá; o que eu quero é alguém para padrinho do meu filho.   — Pois, olha, eu cá sou Deus.   — Já me não serves; porque tu dás a riqueza a uns e a pobreza a outros.   Foi mais adiante; e encontrou uma pobre e perguntou-lhe se queria ser comadre dele.   — Quero; mas sabes tu quem eu sou?   — Não sei.   — Pois, olha, eu cá sou a Morte.   — És tu que me serves, porque tratas a todos por igual.   Fez-se o baptizado e depois disse a Morte ao homem:   — Já que tu me escolheste para comadre, quero-te fazer rico. Tu fazes de médico e vais por essas terras curar doentes; tu entras e se vires que eu estou à cabeceira, é sinal que o doente não escapa e escusas de lhe dar remédio; mas se estiver aos pés é porque escapa; mas livra-te de querer curar aqueles a que eu estiver à cabeceira, porque te dou cabo da pele.   Assim foi. O homem ia às casas e se via a comadre à cabeceira dos doentes abanava as orelhas; mas se ela estava aos pés, receitava o que lhe parecia. Vejam lá se ele não havia de ganhar fama e patacaria, que era uma coisa por maior!  Mas vai uma vez foi a casa dum doente muito rico e a Morte estava à cabeceira; abanou as orelhas; disseram-lhe que lhe davam tantos contos de réis se o livrasse da Morte e ele disse:   — Deixa estar que eu te arranjo — e pega no doente e muda-o com a cabeça para onde estavam os pés e ele escapa.   Quando ia para casa sai-lhe a comadre ao caminho:   — Venho buscar-te por aquela traição que me fizeste.   — Pois, então, deixa-me rezar um padre-nosso antes de morrer.   — Pois reza.   Mas ele rezar, qual rezou! Não rezou nada e a Morte para não faltar à palavra foi-se sem ele. Um dia o homem encontra a comadre que estava por morta num caminho; e ele lembrou-se do bem que ela lhe tinha feito e disse:   — Minha rica comadrinha, que estás aqui morta; deixa-me rezar-te um padre-nosso por tua alma.   Depois de acabar, a Morte levantou-se e disse:   — Pois já que rezaste o padre-nosso, vem comigo.   O homem era esperto; mas a Morte ainda era mais, pois não era?   AEF | Comemoração do Dia da Língua Portuguesa | 05 -05 -2020 4

A LENDA DE CANTA GALO in. Contos Tradicionais de São Tomé Áudi o Diz

A LENDA DE CANTA GALO in. Contos Tradicionais de São Tomé Áudi o Diz a lenda, que já lá vão muitos e muitos anos, outrora S. Tomé era o refúgio de todos os galos do mundo. Viam-se galos por todas as partes da Ilha. Era ensurdecedor o cocorococó dos galos. A Ilha parecia estar sempre em festa por causa da algazarra e do cantar dos galos, quase em todos os momentos e por todos os cantos. A alegria era infernal. Mas os galos monopolizavam a Ilha, esquecendo-se de que não eram os únicos habitantes. Havia pessoas que estavam contentes com os galos, por causa da sua alegria contagiosa. Portanto, achavam adequado e apoiavam o barulho feito pelas aves. Outros estavam indiferentes com a algazarra. Deram voltas e mais voltas às ilhas e ilhéus, procurando incansavelmente um sítio bom, que reunisse todas as condições para ter uma vida alegre. Depois de muito andarem e muito procurarem, passado um ano, encontraram o lugar ideal, que parecia criado de propósito para os galos, fixando-se então aí. Desse tempo, jamais se ouviu os galos cantarem desordenadamente de norte a sul, de este a oeste, mas sim num lugar determinado e a horas certas. Então, os habitantes das ilhas designaram esse lugar de Canta Galo. Existia, no entanto, um terceiro grupo, o mais numeroso, que achava impróprio o barulho feito pelos galos, encontrando-se, portanto, zangados com os galináceos. Não podendo aguentar por mais tempo tanto barulho, o terceiro grupo mandou, através de um mensageiro, o seguinte: “ Aconselhamo-vos a emigrarem e a fixarem-se num local muito afastado de nós. Caso contrário, haverá guerra entre os nossos grupos no período de quarenta e oito horas. O vencedor ficará no terreno. ” Os galos, como eram muito educados e delicados, optaram pela primeira hipótese, convocando imediatamente uma reunião cujo tema era a escolha do rei para chefiar a expedição que se iria processar imediatamente. A escolha recaía sobre um galo preto, muito grande. Depois dos preparativos, a emigração começou. AEF | Comemoração do Dia da Língua Portuguesa | 05 -05 -2020 5

A LENDA DE TIMOR in. Contos Tradicionais de Timor Leste Áudi o Em tempos

A LENDA DE TIMOR in. Contos Tradicionais de Timor Leste Áudi o Em tempos que já lá vão, vivia na ilha de Celebes um crocodilo muito velho, tão velho que não conseguia caçar os peixes do rio. Certo dia, morto de fome, decidiu aventurar-se pelas margens em busca de algum porco ou cão distraído que lhe servisse de refeição. Andou, até cair exausto e desesperado, sem forças para regressar à água. Quem lhe valeu foi um rapaz simpático e robusto que teve pena dele e o arrastou pela cauda. O rapaz, que se viu homem feito de um momento para o outro, verificou, encantado, que trazia ao peito o disco de ouro com que o crocodilo sonhara. Percorreu então as praias, as colinas e as montanhas e compreendeu que aquela era a ilha dos seus sonhos. Instalou-se e escolheu o nome para a ilha. Chamou-Timor, que significa “Oriente”. Em retribuição pelo serviço prestado, o crocodilo ofereceu-se para o transportar às costas sempre que ele quisesse navegar. Foi assim que começaram a viajar juntos. Mas, apesar da amizade que sentia pelo rapaz, quando o crocodilo teve novamente fome lembrou-se de o comer. Antes, porém, quis ouvir a opinião dos outros animais e todos se mostraram indignados. Devorar quem o salvara? Que terrível ingratidão! Envergonhado e cheio de remorsos, o crocodilo resolveu partir para longe e recomeçar a sua vida onde ninguém o conhecesse. Como o rapaz era o único amigo que tinha, chamou-o e disse-lhe assim: – Vem comigo à procura de um disco de ouro, que flutua nas ondas perto do sítio onde nasce o Sol. Quando o encontrarmos seremos felizes. Mais uma vez viajaram juntos, agora sulcando o mar que parecia não ter fim, mas a certa altura o crocodilo percebeu que não podia continuar. Exausto, deteve-se na intenção de descansar apenas um instante, mas logo que parou, o corpo transformou-se numa ilha maravilhosa! AEF | Comemoração do Dia da Língua Portuguesa | 05 -05 -2020 6