MODERNISMO Antes de iniciarmos o estudo sobre o
MODERNISMO Antes de iniciarmos o estudo sobre o Modernismo, é válido relembrar alguns conceitos relacionados aos movimentos da Vanguarda Europeia, tendo em vista as influências de tais movimentos na Semana de Arte Moderna, realizada em São Paulo no ano de 1922, que se consolidou como marco inicial do Modernismo no Brasil. LITERATURA – 3º ANO ENSINO MÉDIO Professor Ataualpa
VANGUARDA EUROPEIA Vanguarda (avant-garde) é uma palavra de origem francesa que significa ir à frente, à dianteira. O termo “vanguarda europeia” é usado para designar o conjunto de movimentos artísticos-culturais que sugiram no início do século XX na Europa. Principais movimentos desse período:
MOVIMENTOS
Futurismo Surgiu através do Manifesto Futurista, criado pelo italiano Filippo Tommaso Marinetti, em 1909. Suas proposições eram negar o passado, o academicismo e trazer o interesse ideológico, a pesquisa, a experimentação, a técnica e a tecnologia para a arte. Marinetti pregava o desapego ao tradicionalismo, especialmente quanto à sintaxe da língua. Velocidade do Automóvel (1913) de Giacomo Balla
Cubismo Teve maior representatividade entre os anos de 1907 e 1914, mais especificamente na pintura. Seu propósito era decompor, fragmentar as formas geométricas. Investia na subjetividade de interpretação das obras, afirmando que um mesmo objeto poderia ser visto de vários ângulos. Na literatura, caracteriza-se pela representação de uma realidade fragmentada, que é retratada por palavras dispostas simultaneamente, com o objetivo de formar uma imagem. Os principais artistas que representaram esta vanguarda foram: Pablo Picasso, Fernand Léger, André de Lothe, Juan Gris e Georges Braque, na pintura; e Apollinaire e Cendras na literatura. As damas d'Avignon (1907) de Pablo Picasso
Expressionismo O Grito (1893) de Edvard Munch Surgido na Alemanha em 1905, o expressionismo foi um movimento artístico calcado na expressão das emoções e dos sentimentos. Possuía um caráter deveras subjetivo, irracional, pessimista e trágico, justamente por enfatizar as mazelas e os problemas do ser humano. O artista norueguês Edvard Munch é o precursor do expressionismo. Sua obra de grande destaque é O Grito, considerada uma das mais emblemáticas do movimento expressionista. Além dele, merecem destaque os artistas: Paul Klee, Kandinsky, Modigliani, Cézanne, e Van Gogh.
Dadaísmo Surgiu em 1916 em plena Primeira Guerra Mundial, a partir do encontro de alguns artistas refugiados que buscaram produzir algo que chocasse a burguesia. É mais um reflexo das emoções causadas pela guerra, tais como revolta, agressividade e indignação. Na literatura, caracteriza-se pela agressividade verbal, pela desordem nas palavras, a incoerência, a quebra da lógica e do racionalismo, e pelo abandono das regras formais do fazer poético: rima, ritmo, etc. A Fonte (1917) de Marcel Duchamp
Surrealismo A Persistência da Memória (1931) de Salvador Dali Esta vanguarda surgiu após a Primeira Guerra, na França, mais precisamente em 1924. Trouxe para a arte concepções freudianas, relacionadas à psicanálise. Segundo esta vanguarda, a arte deve surgir do inconsciente sem que haja interferências da razão. Trabalha frequentemente com elementos como a fantasia, o devaneio e a loucura. Principais participantes: André Breton, Salvador Dalí.
A SEMANA DE ARTE MODERNA Por meio de pesquisas, foi possível concluir, que não houve assim um idealizador do evento que marcou o início do Modernismo no Brasil, a “Semana de Arte Moderna”, ou também chamada de “Semana de 22”. Raul Bopp, poeta modernista, fez o seguinte relato com o título “Elite Paulista”, que ajuda a compreender a sociedade da época: “Havia, em São Paulo, uma pequena elite culta, que ia e vinha todos os anos da Europa. Uma seminobreza rural, com longas tradições de família, florescia à base do café. Eram tempos tranquilos e de fartura plena. Latifúndios opulentos. Cafezais a se perderem de vista. O reduzido grupo de pessoas de bom gosto e cultas, que fazia regularmente as suas viagens transatlânticas, não ficava indiferente aos fatos mais notórios da vida artística europeia. Ouviam os diálogos de um mundo em plena transformação. Em contato com artistas de vanguarda, procuravam conhecer as várias modalidades da pintura moderna e suas sutilezas técnicas. De volta a São Paulo, traziam consigo peças adquiridas, de pintura figurativa ou de correntes abstracionistas. E explicavam aos amigos os princípios básico s desses movimentos. Com as novas tendências plásticas, o artista estava em pleno domínio de expressão, isto é, podia exprimir livremente as suas criações, com maneiras que lhe eram peculiares, emancipado de qualquer formulário estilístico. ”
E, sobre a ideia da realização dessa semana, reunindo várias manifestações artísticas, o poeta Raul Bopp relatou: “Uma vez, numa roda de intelectuais, a conversa se espalhou pelos meandros regionalistas, até escorregar numa pergunta: — Por que é que, em São Paulo, não se passava a limpo aquele “Brasil” de Paris, para dar início a uma renovação geral das artes? Elas estavam completamente subtraídas da atualidade, numa situação desalentadora. Davam uma melancólica sensação de atraso. Oswald de Andrade denunciava: “Estamos atrasados de cinquenta anos em cultura, chafurdados em pleno parnasianismo. ” Graça Aranha, preocupado com a renovação do ambiente literário, dizia: “A nossa literatura está morrendo de academicismo. Não se renova. São os mesmos sonetos, os mesmos romances, os mesmos elogios, as mesmas descomposturas que ouço desde os tempos da fundação da Academia. ” O desejo de renovação, que se sentia em alguns setores, coincidia com o plano de Di Cavalcanti, já em entendimentos com Menotti del Picchia (que era a figura de maior destaque do grupo), Guilherme de Almeida e Rubens Borba de Morais, para se realizar, no salão da livraria Jacinto Silva, uma exposição de quadros de vanguarda, existentes em São Paulo. A iniciativa abriria caminho para experiências modernistas, que poderiam dar novas raízes ao pensamento brasileiro. Mas, para isso, antes de tudo, era preciso vencer resistências conservadoras, que dominavam o ambiente cultural de São Paulo. O plano inicial passou das conversas para os fatos. Tomou perspectivas grandiosas. Articularam-se outros elementos, em atitude de ofensiva, para romper esse estado de coisas. A coincidência com o ano do centenário do Ipiranga daria ao Movimento uma significação de autonomia, nas letras e nas artes. ”
Raul Bopp também deixa claro que foi um conjunto de ações que possibilitou a realização da Semana de Arte Moderna, por isso que não se tem um nome específico responsável pela produção desse evento. Leia o que ele disse sobre a viabilização desse marco do Modernismo brasileiro: “Alguns dias mais tarde, reuniam-se num salão do Automóvel Clube, Paulo Prado, Oswald de Andrade, Menotti, Brecheret e Di Cavalcanti, para planejarem, concretamente, a Semana de Arte Moderna, em São Paulo. Em vez da campanha modernista ficar centralizada numa livraria, decidiu-se dar-lhe base em ambiente de maior amplitude, para alcançar uma repercussão adequada. René Thiollier, da direção do Jornal do Comércio, de São Paulo, tratou logo de entrar em entendimento com o administrador do Teatro Municipal. Pagou pela semana, de 11 a 17 de fevereiro, a importância de 847 mil-réis. Paulo Prado foi o primeiro a subscrever a lista das contribuições, arrastando consigo outros nomes, para assegurar o financiamento da iniciativa. Planejou a colocação de frisas e poltronas a elementos mais destacados da sociedade paulista. Com a publicidade nos jornais, formou-se um ambiente de intensa expectativa. Graça Aranha, figura polida de diplomata da velha escola, ainda com um “saldo de juventude”, que por motivos pessoais tinha vindo a São Paulo, foi convidado a ocupar a cena de teatro, como conferencista. ”
Na palestra proferida por Graça Aranha com o título “A Emoção Estética na Arte Moderna”, na abertura da Semana de Arte Moderna no Teatro Municipal de São Paulo, ficou explícita a proposta do movimento modernista: “Para muitos de vós a curiosa e sugestiva exposição que gloriosamente inauguramos hoje, é uma aglomeração de "horrores". Aquele Gênio supliciado, aquele homem amarelo, aquele carnaval alucinante, aquela paisagem invertida se não são jogos da fantasia de artistas zombeteiros, são seguramente desvairadas interpretações da natureza e da vida. Não está terminado o vosso espanto. Outros "horrores" vos esperam. Daqui a pouco, juntando-se a esta coleção de disparates, uma poesia liberta, uma música extravagante, mas transcendente, virão revoltar aqueles que reagem movidos pelas forças do Passado. Para estes retardatários a arte ainda é o Belo. Nenhum preconceito é mais perturbador à concepção da arte que o da Beleza. Os que imaginam o belo abstrato são sugestionados por convenções forjadoras de entidades e conceitos estéticos sobre os quais não pode haver uma noção exata e definitiva. Cada um que se interrogue a si mesmo e responda que é a beleza? Onde repousa o critério infalível do belo? A arte é independente deste preconceito. É outra maravilha que não é a beleza. É a realização da nossa integração no Cosmos pelas emoções derivadas dos nossos sentidos, vagos e indefiníveis sentimentos que nos vêm das formas, dos sons, das cores, dos tatos, dos sabores e nos levam à unidade suprema com o Todo Universal. Por ela sentimos o Universo, que a ciência decompõe e nos faz somente conhecer pelos seus fenômenos. Por que uma forma, uma linha, um som, uma cor nos comovem, nos exaltam e transportam ao universal? Eis o mistério da arte, insolúvel em todos os tempos, porque a arte é eterna e o homem é por excelência o animal artista. ”
As reações contrárias às manifestações modernistas surgiram de vários segmentos da sociedade. É válido lembrar o que escreveu Monteiro Lobato em uma crítica ao trabalho de Anita Malfatti com o título “Paranoia ou Mistificação”: “Há duas espécies de artistas. Uma composta dos que veem normalmente as coisas e em consequência disso fazem arte pura, guardando os eternos ritmos da vida, e adotados para a concretização das emoções estéticas, os processos clássicos dos grandes mestres. Quem trilha por esta senda, se tem gênio, é Praxíteles na Grécia, é Rafael na Itália, é Rembrandt na Holanda, é Rubens na Flandres, é Reynolds na Inglaterra, é Leubach na Alemanha, é Iorn na Suécia, é Rodin na França, é Zuloaga na Espanha. Se tem apenas talento, vai engrossar a plêiade de satélites que gravitam em torno daqueles sóis imorredouros. A outra espécie é formada pelos que veem anormalmente a natureza, e interpretam-na à luz de teorias efêmeras, sob a sugestão estrábica de escolas rebeldes, surgidas cá e lá como furúnculos da cultura excessiva. São produtos do cansaço e do sadismo de todos os períodos de decadência: são frutos de fins de estação, bichados ao nascedouro. Estrelas cadentes, brilham um instante, as mais das vezes com a luz do escândalo, e somem-se logo nas trevas do esquecimento. Embora eles se deem como novos precursores duma arte a vir, nada é mais velho do que a arte anormal ou teratológica: nasceu com a paranoia e com a mistificação. De há muito já que a estudam os psiquiatras em seus tratados, documentando-se nos inúmeros desenhos que ornam as paredes internas dos manicômios. A única diferença reside em que nos manicômios esta arte é sincera, produto ilógico de cérebros transtornados pelas mais estranhas psicoses; e fora deles, nas exposições públicas, zabumbadas pela imprensa e absorvidas por americanos malucos, não há sinceridade nenhuma, nem nenhuma lógica, sendo mistificação pura. ”
Em síntese, podemos dizer que a Semana de Arte Moderna foi uma manifestação artístico-cultural que ocorreu no Teatro Municipal de São Paulo entre os dias 11 a 18 de fevereiro de 1922. O evento reuniu diversas apresentações de dança, música, recital de poesias, exposição de obras - pintura e escultura - e palestras. Os artistas envolvidos propunham uma nova visão de arte a partir de uma estética inovadora inspirada nas vanguardas europeias. Visavam a uma renovação social e artística no país e que foi deflagrada pela "Semana de 22". O evento chocou grande parte da população e trouxe à tona uma nova visão sobre os processos artísticos, bem como a apresentação de uma arte “mais brasileira”. Houve um rompimento com a arte acadêmica, inaugurando assim, uma revolução estética e o Movimento Modernista no Brasil. FOTO DO GRUPO DE MODERNISTAS E O CARTAZ DE DIVULGAÇÃO DA SEMANA
PRINCIPAIS PROPOSTAS DA SEMANA DE ARTE MODERNA Uma vez que o intuito principal desses artistas era chocar o público e trazer à tona outras maneiras de sentir, ver e fruir a arte, as características desse movimento foram: § § § § § Ausência de formalismo; Ruptura com academicismo e tradicionalismo; Crítica ao modelo parnasiano; Influência das vanguardas artísticas europeias; Valorização da identidade e cultura brasileira; Fusão de influências externas aos elementos brasileiros; Experimentações estéticas; Liberdade de expressão; Temáticas nacionalistas e cotidianas; Aproximação da linguagem oral, com utilização da linguagem coloquial e vulgar. Theatro Municipal de São Paulo
Após 20 anos da Semana de Arte Moderna, em fevereiro de 1942, Mário de Andrade publicou no jornal O Estado de São Paulo quatro artigos nos quais faz um balanço desse evento que marcou o Modernismo no Brasil. Sobre a participação dele, relatou: “São Paulo - Faz vinte anos, este mês de fevereiro, que se realizou no Teatro Municipal, a Semana de Arte Moderna. É todo um passado longínquo de que sorrio sem medo, mas que me assombra um pouco também. Foi gostoso, ficou bonito, mas como tive coragem para participar daquilo! É certo que com minhas experiências artísticas muito venho escandalizando essa minoria que é a intelectualidade do meu país, mas, na realidade, feitas em artigos e livros, minhas experiências como que não se executam in anima nobile. Não estou de corpo presente e isso desencaminha o choque da estupidez. Mas como tive coragem para dizer versos ante uma assuada tão singular, que eu não escutava do palco o que Paulo Prado me gritava da primeira fila das poltronas? . . . Como pude fazer uma hórrida conferência na escadaria do teatro, cercado de anônimos que me caçoavam e ofendiam a valer? . . . O meu mérito de participante é mérito alheio: fui encorajado, fui enceguecido pelo entusiasmo dos outros. Apesar da confiança, absolutamente firme que tinha na estética renovadora, eu não teria forças para arrostar aquela tempestade de achincalhes. E se aguentei o tranco foi porque estava delirando. O entusiasmo dos outros me embebedava, não o meu. Por mim teria cedido. Digo que teria cedido, mas apenas nessa parte espetacular do movimento modernista. Com ou sem a Semana, minha vida intelectual seria o que tem sido. A Semana marca uma data, isso é inegável. É uma data que envaidece recordar. ”
PRIMEIRA GERAÇÃO DO MODERNISMO NO BRASIL 1922 -1930
Com a Semana de Arte Moderna realizada no teatro Municipal de São Paulo, em fevereiro de 1922, tem início a Primeira Fase do Modernismo, que também é chamada de Fase Heroica, ou Fase da Destruição. Pode-se caracterizar tal fase por um maior compromisso dos artistas com a renovação estética inspirada na vanguarda europeia. Entre as principais características dessa geração, encontramos: PRIMEIRA FASE (1922 -1930) § § § § § Ruptura com os padrões clássicos Rompimento com as estruturas do passado Uso de uma linguagem coloquial Liberdade métrica, uso de versos livres Uso da técnica de poemas curtos Presença de uma visão nacionalista crítica Uso de paródias, poema-piada Resgate da cultura primitiva do país Valorização de temas cotidianos Livre associação de ideias
CONTEXTUALIZAÇÃO HISTÓRICA § Fundação do Partido Comunista no Brasil § Os 18 do Forte de Copacabana § Movimento Tenentista § Coluna Prestes § Crise da República Velha
MOVIMENTOS DA PRIMEIRA GERAÇÃO DO MODERNISMO (1922 -1930) I) MOVIMENTO PAU-BRASIL (1924) Liderado por Oswald de Andrade. Buscava a redescoberta do Brasil, diante das inovações ocorridas naquela época. Por esse motivo, foi considerado um movimento primitivista. Exaltava o progresso da Pátria. Mantinha uma conduta irreverente. Usava uma linguagem coloquial. Apresentava uma visão nacionalista crítica. Principais participantes: Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Raul Bopp, Antônio de Alcântara Machado. II) MOVIMENTO VERDE-AMARELO (1926) Liderado por Plínio Salgado. Extremamente nacionalista, dentro de uma visão ufanista, buscando o total rompimento com os moldes europeus. Tinha a anta como símbolo, por ser um animal considerado mítico no Tupi, enfatizando a busca pelas raízes nacionais. Apresentava uma conduta conservadora. Principais participantes: Menotti del Piccchia, Guilherme de Almeida, Cassiano Ricardo III) MOVIMENTO ANTROPOFÁGICO (1928) Iniciado a partir da publicação da Revista Antropofagia, liderada por Oswald de Andrade, Alcântara Machado e Tarsila do Amaral. Foi uma reação ao extremismo do Movimento Verde-Amarelo, buscando revitalizar e consolidar o Movimento Pau-Brasil. Exalta a cultura primitiva do país. Faz severas críticas ao conservadorismo.
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