MARIA VISITA ISABEL Lc 1 39 56 Fr
MARIA VISITA ISABEL (Lc 1, 39 -56) Fr. José M. Milanez, osm
Maria, feliz pelas maravilhas que Deus realizava nela e pela boa-nova da gravidez da prima Isabel, consciente que, tendo-se declarado “serva do Senhor” devia ser também “serva do seu próximo”, “partiu apressadamente para a região montanhosa, dirigindo-se a uma cidade de Judá. Ela entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel”.
“Maria partiu apressadamente” O serviço aos necessitados não pode esperar nem ser protelado, é preciso atender logo, com rapidez. É o que faz Maria. Afinal, sua prima era idosa, estava no sexto mês e precisava muito da ajuda de alguém para os afazeres de casa. Ainda mais que o marido era sacerdote e passava a maior parte do tempo a serviço do Templo.
Por isso, Maria percorre às pressas o caminho que a separa da casa de sua prima: vai de Nazaré, na Galileia, a Jerusalém, na Judeia, mais de 110 Km de estrada
Não foi uma viagem fácil para ela, ainda adolescente. Deve ter-se juntado a alguma caravana, como era costume na época. Chegando a Jerusalém - diz o evangelho - “entra na casa de Zacarias”: sim, casa de Zacarias porque, segundo a mentalidade judaica, só o homem tinha direito de possuir, a mulher não. Por isso, a casa era “de Zacarias”.
E Maria cumprimenta e abraça Isabel, e as duas ficam repletas do Espírito Santo e os mistérios mais profundos se desvelam.
Extasiado diante da prontidão de Maria em acudir à sua prima grávida, frei Davi M. Turoldo se entusiasma e canta: Por que, ó mulher, apressada tu partes, o anúncio santo levando em teu seio? Para as montanhas qual corça tu corres, e vibram os seres por onde tu passas. Fontes em festa e os pássaros cantam, curvam-se as plantas à tua passagem, rios e florestas vibrantes aplaudem: é o Verbo que passa encerrado na arca.
“A criança pula de alegria em seu ventre” Maria leva no ventre Jesus recémconcebido, e Isabel tem João Batista já no sexto mês. O menino de Isabel, ao encontrar-se com aquele de quem seria o precursor, pula de alegria no ventre materno. É a alegria de todo aquele que descobre Jesus em sua vida.
Veja a reação dos apóstolos quando Jesus ressuscitado lhes aparece: “Jesus pôs-se no meio deles e. . . mostrou-lhes as mãos e o lado. Os discípulos então se alegraram por verem o Senhor” (Jo 20, 19 b-20). É a alegria que experimenta a pessoa quando, ao participar de um retiro ou de uma celebração, descobre Jesus Cristo e extravasa seu entusiasmo no canto, na oração, nos gestos.
Anos atrás, fui pároco numa paróquia onde havia cursilhistas e, por isso, resolvi fazer o Cursilho também. Guardei na memória a reação de alguns homens, tocados pela graça de Deus, que expressavam sua alegria até às lágrimas. E alguns deles ainda hoje, depois de muitos anos, continuam firmes na prática da fé. Isso prova que sua conversão não foi “fogo de palha”.
É a alegria que experimenta o cristão quando, consciente do seu pecado, busca o sacramento da Reconciliação, humilha-se como pecador diante do Pai e, confiante na sua misericórdia, conta-lhe seus erros e recebe o perdão. O perdão recebido marca o reencontro com Jesus Cristo, reencontro este que deixa aliviada e alegre a alma do pecador arrependido e perdoado.
Diz o Salmo 31: “Feliz aquele cuja iniquidade foi perdoada, cujo pecado foi absolvido. Eu vos confessei o meu pecado, Senhor. . . e vós perdoastes a pena do meu pecado”. E o salmo termina com palavras que mostram a alegria do pecador perdoado: “Ó justos, alegrai-vos e regozijai-vos no Senhor. Exultai todos vós, retos de coração”.
É a alegria do Pai que, ao ver o filho pródigo voltar para casa arrependido, o abraça, veste-o com as melhores roupas, lhe faz festa e se justifica perante o filho mais velho dizendo: “Era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver, estava perdido e foi encontrado” (Lc 15, 32).
Veja ainda aquela frase emblemática de Jesus: “Eu vos digo: assim haverá mais alegria no céu por um só pecador que se converte do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão” (Lc 15, 7). Realmente, o encontrar-se ou o reecontrar-se com Jesus Cristo só pode despertar alegria e festa. Foi o que acontece no encontro das duas mães, Maria e Isabel.
Depois Isabel, repleta do Espírito Santo, abençoa Maria: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre!” Lindas palavras de bênção, tão lindas que a Igreja as juntou à saudação do anjo e compôs aquela oração que desde crianças aprendemos de nossas mães: “Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco (diz o anjo), bendita sois vós entre as mulheres e bendito o fruto do vosso ventre” (diz Isabel).
Nós Servos de Maria, desde as origens no século XIII, começamos as Horas do Ofício Divino com esta oração: o dirigente entoa a saudação do anjo e os coristas respondem com a bênção de Isabel. Por que fazemos isso? Porque é nosso carisma “servir a Deus e aos seres humanos, inspirando-nos em Maria, Mãe e Serva do Senhor”. Até a nossa oração deve inspirar-se em Maria, ela que foi “eminente exemplo de criatura orante”, como diz o Concílio Vaticano II.
Isabel diz: “Como mereço que a mãe do meu Senhor venha me visitar? ” O Espírito Santo revela a Isabel que Maria traz no ventre o Filho do Altíssimo e a chama de “Mãe do meu Senhor”. O Evangelho nos lembra outras profissões de fé. A de Pedro: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo” (Mt 16, 16); a do homem possuído pelo demônio: “Que queres de mim, Jesus, Filho de Deus Altíssimo? ” (Mc 5, 7); a de Tomé: “Meu Senhor e meu Deus” (Jo 20, 28).
Repleta do Espírito Santo, Isabel proclama bem-aventurada Maria: “Feliz aquela que acreditou, pois o que lhe foi dito da parte do Senhor será cumprido”. A proclamação da bem-aventurança de Maria por Isabel evoca a profissão de fé do apóstolo Tomé ao reconhecer Jesus Ressuscitado: “Meu Senhor e meu Deus!”, e a resposta de Jesus: “Creste porque me viste. Bem-aventurados os que não viram, e creram”. Maria é “feliz” porque “acreditou”.
Em outro contexto do Evangelho Jesus também proclama bem-aventurada Maria, quando, respondendo à mulher que, do meio do povo, exclamara em alta voz: “Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram”, Jesus proclama: “Felizes, sobretudo, são os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 11, 27 -28).
Sim, Maria é feliz porque gerou e criou o próprio Autor da Vida, mas muito mais feliz ainda ela é porque foi dócil à Palavra de Deus e a pôs em prática. Diz Santo Agostinho: “Ela acreditou pela fé e concebeu pela fé. . . Guardou com mais carinho a verdade no seu coração do que a carne nas suas entranhas”. Primeiro, ela o concebeu na fé; depois, o concebeu no seu ventre.
Maria responde a Isabel, entoando o cântico do “Magnificat”: Deste canto, vamos destacar duas coisas: 1ª. Maria engrandece o Senhor e seu espírito se alegra em Deus seu Salvador, porque olhou para a humildade de sua serva, porque fez para ela grandes coisas, porque se lembrou do seu povo, Israel, e da promessa feita a Abraão e à sua descendência.
2ª. Maria conhece as Escrituras e nelas colhe as palavras do cântico que entoa ao Senhor Deus. Seu cântico é uma síntese de frases e conceitos do Antigo Testamento, como veremos a seguir.
Olhou para a humildade de sua serva e fez para mim grandes coisas. Ela tem consciência das maravilhas que Deus opera nela: o fato de ter concebido por obra do Espírito Santo, de trazer no ventre o Filho do Deus Altíssimo, o Messias tão esperado pelo povo de Israel, é uma coisa grandiosa, uma maravilha.
Mas ela diz que não tem mérito algum nisso tudo: é obra do Todo-Poderoso. Ela não passa de “humilde serva”. Sim, todas as gerações de agora em diante a chamarão feliz, mas não por mérito seu, mas porque o Poderoso fez para ela maravilhas. Impressionante a humildade Maria. Diante das coisas grandiosas que Deus realizava nela, ela manteve sua pequenez.
Jesus deve ter pensado na humildade de sua mãe quando proclamou: “Bemaventurados os pobres no espírito, porque deles é o reino dos céus”. E quem mais “pobre no espírito” do que Maria? Diz São Bernardo: “Se Maria não tivesse sido humilde, não teria repousado sobre ela o Espírito Santo, e ela não teria concebido por obra do Espírito. Sim, Maria agradou a Deus por sua virgindade, mas foi por sua humildade que se tornou mãe”.
Mas Maria não concentra a sua oração só em si mesma: Ela é Filha de Sião, é filha do povo de Israel. Ela conhece os sofrimentos do seu povo e profetiza para seu povo dias melhores, graças ao Todo-Poderoso que “mostrou a força do seu braço; dispersou os que têm planos orgulhosos no coração. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes.
Encheu de bens os famintos, e mandou embora os ricos de mãos vazias. Acolheu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia, conforme prometera a nossos pais. . . ”. Maria sempre foi sensível às dores e sofrimentos do seu povo. O cristão não pode fechar-se em si, rezar só por si, deve abrir-se às necessidades de todos, principalmente dos mais sofridos.
Como dizia acima, Maria conhece as Sagradas Escrituras: Este cântico é uma síntese de frases e conceitos do Antigo Testamento. Isso mostra que ela tinha familiaridade com as Escrituras Sagradas. Vejam este quadro comparativo:
C NTICO DE MARIA ANTIGO TESTAMENTO - Regozijar-me-ei no Senhor. Encontrarei A minha alma minha alegria no Deus de engrandece o minha salvação (Hb 3, 18) Senhor, e meu - Exulta o meu coração no espírito se alegra em Deus, Senhor. Porque me alegro na vossa salvação meu salvador. (1 Sm 2, 1: Canto de Ana)
Porque ele olhou para a humildade de sua serva “Senhor, se vos dignardes olhar para a aflição da vossa serva e vos lembrardes mim [. . . ], se lhe derdes um filho, eu o consagrarei ao Senhor durante todos os dias da sua via (1 Sm 1, 11: Oração de Ana).
Todas as gerações, de agora em diante, me chamarão feliz, porque o Poderoso fez para mim grandes coisas. Ele é a tua glória e o teu Deus que fez por ti estas grandes coisas que viste com os teus olhos (Dt 10, 21).
O seu nome é santo e a sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que o temem. Como um pai tem piedade de seus filhos, assim o Senhor tem compaixão dos que o temem. É eterna a misericórdia do Senhor para os que o temem (Sl 102, 13. 17).
Ele mostrou a força do seu braço; dispersou os que têm planos orgulhosos no coração. Calcastes Raab e o traspassastes; com braço poderoso dispersastes vossos inimigos (Sl 88, 11).
- Vai-se exaltar o que é baixo, e abaixar o que é Derrubou os elevado (Ez 21, 31). poderosos - O Senhor eleva os de seus humildes, mas abate os tronos e ímpios até a terra (Sl 146, 60). exaltou os - Faz os sacerdotes andarem descalços, abate os humildes. poderosos (Jó 12, 19).
Encheu de - O Senhor dessedentou a garganta sequiosa, e bens os famintos, e cumulou de bens a que tinha fome (Sl 106, 9). mandou embora os - Os poderosos empobrecem e passam ricos de fome, mas aos que mãos buscam o Senhor nada vazias. lhes falta (Sl 33, 11).
Acolheu Israel, seu servo, lembrandose de sua misericórdia. - Mas tu, Israel, meu servo, Jacó que escolhi, raça de Abraão, meu amigo: [. . . ] tu és meu servo, eu te escolhi, e não te rejeitei (Is 41, 8 -9). - Lembrou-se de sua bondade e de sua fidelidade em favor da casa de Israel (Sl 97, 3).
- Mostrai a vossa fidelidade conforme para com Jacó e a vossa prometera a piedade para com Abraão, como jurastes a nossos pais, nossos pais (Mq 7, 20). em favor de - Ele faz misericórdia a Davi Abraão e de e à sua descendência para sua sempre (2 Sm 22, 51). descendência - Faço aliança contigo e para sempre. com tua posteridade. (Gn 17, 7).
Como vemos, o cântico de Maria e uma ressonância de textos do Antigo Testamento, sinal de que Ela os conhecia muito bem. Isso nos faz ver a importância que tem em nossa vida a Sagrada Escritura, Palavra de Deus e fundamento da nossa fé.
Principalmente nós que somos ou nos preparamos para ser anunciadores da Palavra (“Ide pelo mundo e anunciai a boa-nova a todas as criaturas”), devemos amar a Bíblia e reservar cada dia tempo suficiente para ler, meditar e assimilar a Palavra de Deus, conscientes de que só se ensina e se anuncia com eficácia o que é antes vivido.
Maria ficou três meses com Isabel: a “serva do Senhor” faz-se “serva de Isabel”. Amar a Deus e amar o próximo, servir a Deus e servir o próximo: as duas coisas andam juntas. “Se alguém disser: Amo a Deus, mas odeia o seu irmão, é mentiroso; pois quem não ama o seu irmão a quem vê, não poderá amar a Deus a quem não vê. Este é o mandamento que dele recebemos: quem ama a Deus, ame também seu irmão” (1 Jo 4, 20 -21).
O Evangelho nos relata dois momentos importantes da vida de Maria, nos quais ela mostra que o seu amor a Deus a levava a amar os irmãos e irmãs, a perceber as suas necessidades e a ajudá-los. O primeiro momento é este da visitação, quando ela por três meses se pôs a serviço de sua prima Isabel.
O segundo momento foi nas bodas de Caná (Jo 2, 11), quando ela fala duas vezes: a primeira vez, ao seu filho: “Eles não têm vinho”; a segunda vez, aos empregados: “Fazei tudo o que ele vos disser”. E, como resultado de sua intervenção, “Jesus manifestou a sua gloria e seus discípulos creram nele”.
Tudo isso evoca a cena do lavapés: “Vós me chamais de Mestre e Senhor; e dizeis bem, porque sou. Se eu, o Mestre e Senhor, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que façais assim como eu fiz para vós” (vers. 13 -15).
Veja este outro episódio do Evangelho: João e Tiago pedem a Jesus: “Permite que nos sentemos, na tua glória, um à tua direita e outro à tua esquerda” (Mc 10, 37).
Os outros discípulos se irritam com eles e Jesus intervém: “Quem entre vós quiser o maior seja aquele que vos serve, e quem entre vós quiser o primeiro seja o escravo de todos” (Mc 10, 43 -44). Este é o grande ensinamento de Jesus e o testemunho de Maria: o verdadeiro servo de Deus, é aquele que sabe servir seus irmãos e irmãs.
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