IRIUSP Persistncia e Mudana Social Alexandre Abdal Aula
IRI-USP Persistência e Mudança Social Alexandre Abdal Aula 07 2017
Referências: Obrigatória HARVEY, 1992. Cap. 3 e 9. LÖWY, 2008. GIDDENS, 2001. Cap. 21 (seções “Max Weber” e “Dilemas teóricos”). Complementar CAUQUELIN, 2005. Cap. II da Parte I e Parte II. EAGLETON, 2011. Cap. 1. Filme (sugestão) The Black Power Mixtape 1967 -1975, de Goran Olsson (Suécia, 100’, 2011).
Introdução. • No livro A condição pós-moderna, Harvey busca investigar e compreender as transformações culturais, políticas e socioeconômicas que vem tendo lugar desde os anos 1970. • Uma forma de identificar tais mudanças, muito comum nos anos 1970 -80, e que encontra ecos até hoje, é a interpretação dessas transformações como advento da pós-modernidade. • Harvey: 1. Não vai descartar a categoria pós-modernidade, mas vai considerála como uma condição histórica específica. 2. E defende que a afirmação dessa condição histórica, embora esteja assentada em novas formas culturais e novos arranjos de estruturação do mundo da produção, não acarretou a emergência de uma sociedade pós-capitalista ou pós-industrial.
• Pós-modernidade, assim como modernidade, é tema plural e carregado de sentidos, muitas vezes contraditórios. • Único consenso (e mesmo assim provisório) é que. . . o pós-modernismo é uma reação ao modernismo. . . • Ou seja, 1. É uma reação aos traços racionalizadores, planejadores e totalizantes do modernismo; 2. E faz tal reação mediante valorização do que é heterogêneo e fragmentário, desconfiando das grandes narrativas e dos discursos universalizantes.
Dado rejeição a traços marcantes do modernismo, ponto de partida da análise do pós-modernismo só pode ser o próprio modernismo. . .
Aula passada. . . Síntese e periodização • 1789 - 1848 (Rev. Francesa até Primavera dos Povos). Ø Período heroico-ingênuo do modernismo (notar: tb. é a fase heroicorevolucionária da burguesia). Ø Apogeu do Proj. Iluminista: mito do progresso e crença na civilização. Ø Ideia-força: cada pergunta possui única respostas ou representação. • 1848 - 1910/15 (Primavera dos Povos até 1º Guerra). Ø Período de perda da ingenuidade do modernismo (notar: virada conservadora da burguesia). Ø Crítica devastadora ao progresso e à razão (Marx, Weber e Nietzche). Ø Ruína da ideia-força: cada pergunta comporta diferentes respostas ou representações. Ø Autonomização do juízo estético. • 1910/15 - 1939/45 (Entreguerras). Ø Período de engajamento e busca de novas mitologias pelos modernismos. Ø Auge das vanguardas e reaproximação entre ação estética e ação política. Ø Futurismo: reposição do mito do progresso/razão na simbologia da máquina. • 1939/45 - 1968 (Pós 2º Guerra até Maio de 68). Ø Período do alto modernismo (notar: consolid. de sists. de prod. em massa). Ø Aprox. com status quo + predominância de viés racional-tecnocrático, em padrão totalizante, hierárquico e autoritário de ordenação do mundo.
Pós-modernidade e modernidade são pensadas por Harvey como modos de vida. Eagleton: uma chave para pensar cultura é caracterizá-la como modo de vida. Cultura como modo de vida implica chamar atenção para dimensão pré-reflexiva da cultura, internalizada pelos indivíduos e que remete àquilo que particulariza os agrupamentos humanos.
Algo aconteceu entre 1968 -1972. . . Maio de 1968 como ápice da contracultura e das tendências antimodernas
O que foi mesmo Maio de 68? (5’ min para procurar e/ou ver Lowi, 2008)
Maio de 68. • Onda gigante de protestos, em diferentes países, com viés anticapitalista. • Importante: movimentos estouram em momento de crescimento econômico, construção de sistemas de bem-estares e aumentos salariais. • Além disso, protestos alcançam todas as esferas sociais. Simbolicamente, Implicou a crise derradeira do Proj. Iluminista e a perda de fé em toda e qualquer possibilidade de emancipação humana pela técnica, ciência ou razão. • Harvey identifica Maio de 1968 e tendências que sintetiza como marco fundador do pós-modernismo.
Maio de 68 segundo Löwy. Espírito de 68 se caracteriza por romantismo revolucionário. • Romantismo: Ø É uma das principais formas da cultura moderna. Ø Encerra revolta / reação à sociedade capitalista-moderna a partir de valores culturais pré-modernos. Ø Critica: desencantamento moderno do mundo, triunfo da racionalidade instrumental, dissolução individualista e competitiva das comunidades, mecanização do trabalho, mercantilização da existência, produtivismo e consumismo etc. Ø Quando regressivo-reacionário prega volta ao reestabelecimento de uma harmonia social perdida. passado e o Ø Quando revolucionário prega um novo futuro utópico de sociedade emancipado e libertária.
Portanto, Espírito de 68 encerra renovado romantismo revolucionário, anticapitalista e crítico das tendências produtivistas, racionalizadoras, totalizantes e autoritárias do alto modernismo. E, enquanto afirmação, trouxe consigo esperança de sociedade emancipada e livre de todas as formas de opressão. • Feminismo • Movimento negro • Direitos Civis • LGBT • Ecologia • . . .
Pós-modernismo. Do ponto de vista de Harvey, Maio de 68 não foi bem sucedido no sentido de dissolução do capitalismo. Fragmentação, flexibilidade, subjetivismo, descontinuidade, localismo etc. desencadeados por Maio de 68 foram incorporados, moldando novos modos de vida.
Pós-modernismo. Argumento: Pós-modernidade é a lógica cultural do capitalismo avançado, com produção cultural tendo sido incorporada pela produção mais geral de mercadorias.
Nesse sentido, Destacar 4 grande tendências: 1. Crise das grandes narrativas 2. Fragmentação da personalidade 3. Separação radical entre significado e significante 4. Integração da cultura à vida cotidiana e ao mercado
1. Crise das grandes narrativas. • Ponto de partida: além de marcada pela efemeridade, vida moderna passa a ser percebida como caótica e impossível de ser apreendida de forma racional. Ataque frontal às grandes narrativas, ou seja, às narrativas totalizantes e que conectam de forma lógica ou dialética passado, presente e futuro. • Além disso, grandes narrativas (como o iluminismo ou o marxismo) são autoritárias na medida em que incorporam a imposição pelo alto de uma visão de mundo particular. • No mundo da arte, tem a ver com crise das vanguardas. (ver componentes da crise abaixo. São eles: crise da ideia de gênio criador, crise dos processos de valorização das obras e crise da postura antimercado).
• Ex. empírico: emergência dos Novos Movimentos Sociais (NMS) a partir da crise dos PCs tradicionais. Ø Movimentos de emancipação das mulheres, negros, imigrantes, LGBTs, assim como de proteção da ecologia, animais etc. não poderiam esperar vitória final do comunismo. Ø Além disso, os próprios PCs atuaram de forma conservadora ou reacionária, deslegitimando ou, mesmo, barrando tais lutas. • Ex. teórico: Foucault. Ø Agenda de pesquisa de baixo para cima, centrada na noção de (micro)poder, com forte associação entre poder e discurso. Ø Concepção de repressão como algo descentralizado e fragmentado pela sociedade, sem centro gerador. Ø Ação política: ataque pluralista e multifacetado às práticas localizadas de repressão. Ø Grupos reprimidos devem ser capazes de falar por si mesmos.
2. Fragmentação da personalidade. • Pós-modernidade traz consigo modos próprios de experimentar, ser e sentir o mundo. Percepção de falta de sentido + separação entre significado e significante = Formação de personalidade fragmentária e esquizofrênica • Personalidade pós-moderna perde capacidade de interligar passado, presente e futuro de forma coerente. • Experiência como série de presentes puros superpostos, mais ou menos contraditórios. • Resultado: aumento exponencial da intensidade desses presentes, cujo desdobramento é o júbilo e/ou o terror absolutos.
Modernidade: personalidade alienada e paranoica Ø Alienação: eu coerente, mas que não se apropria de si mesmo Ø Paranoia: pq coerente, eu projeta futuros (melhores), mas futuros nunca chegam vs. Pós-modernidade: personalidade fragmentária e esquizoide Ø Fragmentação: experiência como conjunto de presentes sobrepostos Ø Esquizofrenia: incapacidade de integrar passado, presente e futuro em eu coerente • Assim, abandono da ideia de continuidade histórica é completado. Passado resta como mundo a ser pilhado na medida em que pode ser integrado ou percebido como presente. • No mundo das artes, tem a ver com: 1. Afirmação do artista/autor como editor do mundo (“postura fria”); e 2. Ênfase nos happenings, performances e uso intensivo de novas mídias e tecnologias
Adriana Varejão. Série polvos. (PS: idem para imagens abaixo).
3. Separação radical entre significado e significante. • Modernismo: associação rígida e linear entre o que é dito (significado) e o como de diz (significante). Pós-modernidade explode tal associação • Noção aqui é a de que vida cultural é série de textos interconectados. • E que autor não possuí controle sobre significados de sua obra. Tais significados são dados na e pela interação entre consumidor e obra/produto. • No mundo da arte, tem a ver com crise do artista/autor enquanto produtor de significados, com valor da obra passando a ser dado pelo contexto e não mais pelo gênio criador do artista/autor.
• Fontaine (Fonte), 1917. • Exposta no Salão dos Artistas Independentes de Nova Iorque.
4. Integração da cultura à vida cotidiana e ao mercado. • Pós modernismo encerra forma muito particular de integração da cultura à vida cotidiana. Mergulho de cabeça no mercado como mecanismo de integração à cultura popular • Resultado: mercantilização profunda + estetização pelo consumo dos modos e estilos de vida. • No mundo das artes, tem a ver com assunção, pelo artista, como parte integrante do mercado e que se vale de mecanismos de mercado para disseminação de sua arte. Ø Andy Warhol como artista E negociante-publicitário de si mesmo.
• Andy Warhol, “Self”.
• Andy Warhol, Mao. (Reprodução em massa de ready-mades.
Síntese e resumo até aqui – pós-modernidade • 1968/73 - ? ? (Maio de 68/Choque do petróleo até dias de hoje? ). Ø Período da pós-modernidade (pós-fordismo, globalização, mundialização etc. ) Ø Desconstrução dos sistemas de produção em massa + crise da empresa verticalmente integrada, com sists. produtivos integrando flexibilidade, despadronização e organização em redes de produção e distribuição. Ø Revolução tecnológica: mudança do paradigma da II Rev. Industrial (petróleo e eletricidade) para um novo paradigma centrado nas TICs. Ø Ciclo de (re)unificação do mercado mundial (“globalização”). Ø Crise das grandes narrativas da modernidade (progresso, socialismo) + abandono da ideia de continuidade e coerência histórica. Ø Fragmentação da personalidade: experimentação do mundo enquanto pluralidade de presentes simultâneos e superpostos. Ø Separação radical entre significante e significado: crise do autor/artista enquanto criador. Ø Integração completa da cultura à vida cotidiana: mercantilização dos modos e estilos de vida + estetização pelo consumo.
Agora, Pós-modernidade não é fim da história ou ponto de chegada da humanidade. . . também não implica superação da relação social propriamente capitalista ou a emergência de uma sociedade pósindustrial. E, assim como modernidade, deve ser pensada enquanto fenômeno / condição geográfica e historicamente situada.
Argumento: Pós-modernidade é a lógica cultural do capitalismo avançado, pós sistemas fordianos de produção em massa e em ciclo de unificação do mercado mundial, com produção e práticas culturais tendo sido incorporadas pela produção mais geral de mercadorias. Portanto, encerra (novos) modos de vida, centrado em ideias de diferença, pluralismo, flexibilidade etc.
Nesse sentido, a oposição. . . universal ↔ modernidade (geral, abstrato, homogêneo, unicidade) vs. diverso ↔ pós-modernidade (particular, individual, heterogêneo, específico). . . só faz sentido quando pensada em perspectiva histórica.
É nesse (novo) contexto que sociologia contemporânea está enraizada e vai desenvolver (re)novadas teorias. Argumento: assim como clássicos, sociólogos contemporâneos sãos pessoas de seu tempo.
Sociologia contemporânea mantém ecletismo teóricometodológica. Argumento: isso não é sinal de fraqueza e/ou infantilidade da sociologia, mas sinal de sua força e vitalidade. (dificilmente, teoria una e coerente dá conta de toda a variabilidade da experiência humana) • Boa teoria sociológica (Giddens): (ex. : “A ética. . . ”, de Weber, e “O sucídio”, de Durkheim) 1. Desafiante do senso comum (contra-intuitiva). 2. Capaz de iluminar aspectos aparentemente paradoxais ou enigmáticos da realidade social. 3. Capaz de extrapolar seu problema ou questão original. 4. Frutuosa, no sentido de gerar novas ideias e novas pesquisas.
Dilemas da sociologia contemporânea (Giddens): 1. Agência vs. estrutura. 2. Consenso social vs. conflito social. 3. Questão de gênero. 4. Aspectos do desenvolvimento social moderno e peso relativo dos determinantes econômicos.
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