FIM DE SCULO PORTUGUS GERAO DE 1890 Jos












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FIM DE SÉCULO PORTUGUÊS (GERAÇÃO DE 1890) José Carlos Seabra
O ultimatum inglês (1891) Tendências múltiplas convivem no fim de século português. A penetração pouco consistente do Parnasianismo em Portugal: teria preparado o terreno para a absorção do Decadentismo e do Simbolismo (literatura como artifício, contenção sentimental, beleza formal, esteticismo).
OLAVO BILAC A um poeta Longe do estéril turbilhão da rua, Beneditino escreve! No aconchego Do claustro, na paciência e no sossego, Trabalha e teima, e lima , e sofre, e sua! Mas que na forma se disfarce o emprego Do esforço: e trama viva se construa De tal modo, que a imagem fique nua Rica mas sóbria, como um templo grego Não se mostre na fábrica o suplicio Do mestre. E natural, o efeito agrade Sem lembrar os andaimes do edifício: Porque a Beleza, gêmea da Verdade Arte pura, inimiga do artifício, É a força e a graça na simplicidade.
FLORBELA ESPANCA Ser poeta é ser mais alto, é ser maior Do que os homens! Morder como quem beija! É ser mendigo e dar como quem seja Rei do Reino de Aquém e de Além Dor! É ter de mil desejos o esplendor E não saber sequer que se deseja! É ter cá dentro um astro que flameja, É ter garras e asas de condor! É ter fome, é ter sede de Infinito! Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim. . . é condensar o mundo num só grito! E é amar-te, assim, perdidamente. . . É seres alma, e sangue, e vida em mim E dizê-lo cantando a toda a gente!
DAS TENDÊNCIAS FINISECULARES O paradigma das tendências finiseculares “novistas”: a opção esteticista (“arte pela arte, recusa do empenhamento moral, didático e político” (p. 20)) Contribuição ao Modernismo: consciência da literatura como artefato textual e da alteridade da língua literária. (p. 21)
DECADENTISMO Crise de confiança na sociedade urbano-industrial Reação às exigências da moderna racionalidade científica e pragmática Culto da arte como refúgio/superação
BAUDELAIRE Uma carniça Zumbiam moscas sobre o ventre e, em alvoroço, Dali saíam negros bandos Lembra-te, meu amor, do objeto que encontramos De larvas, a escorrer como um líquido grosso Numa bela manhã radiante: Por entre esses trapos nefandos. Na curva de um atalho, entre calhaus e ramos, Uma carniça repugnante. E tudo isso ia e vinha, ao modo de uma vaga, Ou esguichava a borbulhar, As pernas para cima, qual mulher lasciva, Como se o corpo, a estremecer de forma vaga, A transpirar miasmas e humores, Vivesse a se multiplicar. Eis que as abria desleixada e repulsiva, O ventre prenhe de livores. E esse mundo emitia uma bulha esquisita, Como vento ou água corrente, Ardia o sol naquela pútrida torpeza, Ou grãos que em rítmica cadência alguém agita Como a cozê-la em rubra pira E à joeira deita novamente. E para ao cêntuplo volver à Natureza Tudo o que ali ela reunira. As formas fluíam como um sonho além da vista, Um frouxo esboço em agonia, E o céu olhava do alto a esplêndida carcaça Sobre a tela esquecida, e que conclui o artista Como uma flor a se entreabrir. Apenas de memória um dia. O fedor era tal que sobre a relva escassa Chegaste quase a sucumbir.
Por trás das rochas irrequieta, uma cadela Em nós fixava o olho zangado, Aguardando o momento de reaver àquela Náusea carniça o seu bocado. — Pois hás de ser como essa infâmia apodrecida, Essa medonha corrupção, Estrela de meus olhos, sol de minha vida, Tu, meu anjo e minha paixão! Sim! tal serás um dia, ó deusa da beleza, Após a benção derradeira, Quando, sob a erva e as florações da natureza, Tornares afinal à poeira. Então, querida, dize à carne que se arruína, Ao verme que te beija o rosto, Que eu preservei a forma e a substância divina De meu amor já decomposto!
SIMBOLISMO “Em síntese, importa ler o simbolismo como sistema estético-literário e estratégia textual que supera o decadentismo (com o qual partilha a atitude aristocrática e cosmopolita, a orientação antimimética, esteticista e “novista”) numa dinâmica que se move para um plano de placidez originária ou de otimismo esotérico, atribuí à poesia uma suprema e transracional função gnóstica, e pressupõe uma constituição analógica do real, defluente da unidade primigênia e remanescente numa harmonia oculta, embora traduzível apenas na estruturação do texto pelo símbolo e pela música, na refundação da linguagem e, por vezes, no verso livre. ” (p. 26)
BAUDELAIRE Correspondências A Natureza é um templo onde vivos pilares Deixam às vezes soltar confusas palavras; O homem o cruza em meio a uma floresta de símbolos Que o observam com olhares familiares. Como os longos ecos que de longe se confundem Em uma tenebrosa e profunda unidade, Vasta como a noite e como a claridade, Os perfumes, as cores e os sons se correspondem. Há perfumes frescos como as carnes das crianças, Doces como o oboé, verdes como as pradarias, – E outros, corrompidos, ricos e triunfantes, Como a expansão das coisas infinitas, Como o âmbar, o almíscar, o benjoim e o incenso, Que cantam os transportes do espírito e dos sentidos.
NEO-ROMANTISMO/ NEO-GARRETISMO Também de oposição à modernidade científica, técnica e sociológica oriunda do Iluminismo Culto da pátria, do folclore das tradições
ANTONIO NOBRE Ladainha Lusitânia I . . . António era o pastor desse rebanho: Com elas ia para os Montes, a pastar, E tinha pouco mais ou menos seu tamanho, E o pasto delas era o meu jantar. . . E a serra a toalha, o covilhete e a sala. Passava a noite, passava o dia Naquela doce companhia. Eram minhas Irmãs e todas puras E só lhes minguava a fala Pra serem perfeitas criaturas. . . E quando na Igreja das Alvas Saudades Que era da minha Torre a freguesia) Batiam as Trindades, Com os seus olhos cristianíssimos olhavamme, Eu persignava-me, rezava «Ave-Maria. . . » E as doces ovelhinhas imitavam-me. Menino e moço, tive uma Torre de leite, Torre sem par! Oliveiras que davam azeite. . . Um dia, os castelos caíram do Ar! (, , , ) Só! Ai do Lusíada, coitado, Que vem de tão longe, coberto de pó. Que não ama, nem é amado, Lúgubre Outono, no mês de Abril! Que triste foi o seu fado! Antes fosse pra soldado, Antes fosse próprio Brasil. . . Menino e moço, tive uma Torre de leite, Torre sem par! Oliveiras que davam azeite, Searas que davam linho de fiar, Moinhos de velas, como latinas, Que São Lourenço fazia andar. . . Formosas cabras, ainda pequeninas, E loiras vacas de maternas ancas Que me davam o leite de manhã, Lindo rebanho de ovelhas brancas; Meus bibes eram de sua lã.