As correntes tericas da Biblioteconomia reflexes e aplicaes
As correntes teóricas da Biblioteconomia: reflexões e aplicações Carlos Alberto Ávila Araújo Universidade Federal de Minas Gerais 21 de março de 2017
1. Iniciando o debate. . . • O mito da caverna Platão • • • As pessoas vêem sombras e as tomam por verdade Causa – não a natureza dos prisioneiros mas as CONDIÇÕES em que se encontram Correntes = crenças em que acreditamos sem questionar Hoje: tempos de “pós -verdade”. . .
Shera, Sociological foundations of Librarianship • a) b) • • • Biblioteconomia é uma profissão Serviço para sociedade (professar = dedicação) Corpo de conhecimentos (teorias e práticas) Bibliotecário é um mediador, seu papel é MAXIMIZAR O USO dos registros de conhecimento Epistemologia social: estudo dos modos como uma sociedade lida com o conhecimento Estudo do conhecimento: interação entre conhecimento e atividade social (ou dinâmica social)
Castro, História da Biblioteconomia Brasileira • História do ensino de graduação • 1879 -1928 – influência humanista francesa sob a liderança da Biblioteca Nacional • 1929 -1939 – modelo pragmático americano – Instituto Mackenzie • 1940 -1961 – consolidação do modelo americano, 6 novos cursos, IBBD, Febab • 1962 -1969 – uniformização dos conteúdos pedagógicos e regulamentação da profissão • 1970 -1995 – paralisação do crescimento quantitativo das escolas de graduação e crescimento dos cursos de pósgraduação
Burke, História social do conhecimento II Mc. Neely e Wolverton, A reinvenção do conhecimento • Diferentes “missões” ou “tarefas” ao longo do tempo • Desafio de preservar e guardar • Desafio de organizar, descrever, classificar • Desafio de proporcionar acesso, “atender o cliente” • Hoje: refletir sobre o que deve ser guardado, organizado e disponibilizado; promover a diversidade; garantir o uso efetivo e crítico • Quanto aos objetivos da ciência: técnicos, práticos, emancipatórios (Habermas)
2. Surgimento da Biblioteconomia • Renascimento: primeiros tratados, coleção, acervo, “patrimônio”, tesouros – guarda, preservação • Modernidade: rotinas institucionais, “gestão” • Positivismo: técnicas de tratamento, regras, “nomos”, “grafias” • Espaço reflexivo – ciência “auxiliar” • Separação acentuada pelas associações profissionais (ALA, 1876) Advis pour dresser une bibliothèque, de Gabriel Naudé, publicada em 1627, que marca a “transição da biblioteconomia empírica para a moderna prática bibliotecária” (FONSECA, 1979, p. 11)
3. A evolução do século XX 3. 1. Funcionalismo • Propostas para tornar bibliotecas dinâmicas, vivas, ativas • Lógica da eficácia, produtividade • Cumprimento de funções/tarefas no ambiente mais amplo ao qual pertencem (sociedade como um todo; organizações) • Primeira manifestação de um pensamento “póscustodial”
-Public Library Movements, Horace, Mann - Referência, Green - Chicago, Butler, Shera, funções na sociedade - Cinco leis, Ranganathan; outros: Thompson, Urquhart - Library Media Centers
3. 2. Estudos críticos • Impacto do pensamento crítico sobre a corrente positivista • Relação com processos de dominação, conflito, poder – bibliotecas como espaços de contradições • Ideologia como categoria analítica • Denúncia dos papéis desempenhados pelas bibliotecas • Resgate da perspectiva histórica/contextual das instituições e das práticas que se desenvolvem nelas
- Ação cultural, gosto popular - Bibliotecas como “centro de cultura” (Milanesi) - Teoria marxista do escrito – Estivals, Meyriat, Breton
3. 3. A perspectiva dos sujeitos • Origem com pesquisas para dados de satisfação/avaliação (“feedback”) ou perfis de públicos – lógica de controle • Crítica à perspectiva de bibliotecas agindo sobre os indivíduos • Sujeitos ativos, produtores de significado
- “Estudos de comunidade” - Hábitos de leitura – Brascomb, Knapp, Evans - Estudos de avaliação - Necessidades e usos, variáveis – Line, Paisley, Lancaster, Brittain - Abordagem construtivista – Kuhlthau, Todd
3. 4. Teorias da representação • Aspecto inicialmente tratado apenas de uma perspectiva técnica – representação únivoca, correta • Problematização das técnicas e depois da própria dimensão significativa dos acervos e instrumentos utilizados para sua representação • Progressivo abandono de uma perspectiva representacional (espelho) em prol de uma semiótica
- Catalogação – IFLA, AACR, ISBD; OCLC, FRBR - Classificação bibliográfica – Dewey, Cutter, Otlet - Teoria da classificação facetada – Ranganathan, CRG - Teoria do conceito - Linguagens de indexação
4. Abordagens contemporâneas • • • Novos tipos de instituições e serviços Espaço extra-institucional Fluxos, circulação Interação mútua entre instituições e públicos Perspectivas globalizantes, sistêmicas, “totais”, “integrais” • Imaterial • Tecnologias digitais (mais do que instrumental)
-Mediação – Ortega y Gasset, Litton, Gómez Hernández, Estabel; “assembleia de usuários” (Fonseca) - “Biblioteca 2. 0”, Casey, Miller - “Nova Biblioteconomia” (Lankes) - Competência informacional – Zurkowsky - Bibliotecas eletrônicas – Rowley
5. A relação com a Ciência da Informação • Documentação Europa final século XIX (“pós-custodial”) • Rompimento com a biblioteconomia – Ala/SLA 1908 • Os primeiros cientistas da informação – Inglaterra, URSS e EUA 1958 • Do microfilme ao computador – Bush 1945 • Teoria Matemática da Comunicação – Shannon e Weaver, 1949
Modelo físico/sintático Modelo cognitivo/semântico Comunicação científica Caracterização das fontes formais e informais de informação Avaliação dos serviços e sistemas de informação Garvey, Griffith, Ziman, Meadows Fluxos, colégios invisíveis e gatekeepers Comunicação da informação científica Crane, Crawford, Zaltman, Beaver Sistemas orientados para usuários Vakkari, Fugmann, Ingwersen Representação da informação Sistemas de classificação e linguagem controlada Lancaster, Vickery, Foskett Usuários da informação Uso da informação Line, Paisley, Bernal, Urquhart Comportamento informacional Wilson, Dervin, Nilan, Ellis, Todd Gestão da informação Gestão de recursos informacionais Sauermann, Cook, Berry, Taylor Gestão da informação e do conhecimento Nonaka, Takeuchi, Senge, Davenport, Prusak Economia política da informação Disseminação, extensão Guinchat, Menou, Machlup Políticas de informação Inclusão Wersig, Nevelling, Mattelart Estudos métricos da informação Leis bibliométricas Lotka, Bradford, Zipf Análise de citações Solla Price, Garfield, Donohue Modelo social/pragmático Redes Dimensões políticas e culturais da ICT Escience Acesso livre Mulkay, Holton, Lievrouw Classificações facetadas Marcação social, folksonomias, ontologias Ruthven, Gnoli, Spiteri, Broughton Práticas informacionais Savolainen, Mc. Kenzie, Talja, Tuominen, Erdelez Contextos organizacionais Cultura organizacional Orientação informacional Choo, Fahey, Marchand. Kettinger, Rollins Sociedade em rede, cibercultura, capitalismo cognitivo Lojkine, Day, Braman, Allard, Qayyum, Mc. Causland Cientometria, visualização de literaturas, redes White, Mc. Cain, Wormell, Cooper, Blair
Sujeito Instrumentos para potencializar esse processo Transferência Instrumentos para potencializar esse processo Documento Informação = o “conteúdo objetivo” do documento que é transferido Transferência física ou construção de novos documentos/representantes Uso de tecnologias/técnicas de processamento
Conhecimento Dado = Documento Instrumentos e sistemas voltados para duplicar o processo cognitivo de busca da informação Informação = aquilo que altera a estrutura de conhecimento Resultado do efeito do dado na mente do sujeito
Ato de IN-FORMAR: produzir registros materiais do conhecimento Instituições e sistemas que atuam nesse processo Ser humano agente Desenvolve a todo momento ações pedagógicas, administrativas, jurídicas, culturais, sociais, etc Acervo social do conhecimento Ato de SE IN-FORMAR: utilizar/se apropriar dos registros materiais do conhecimento
6. A relação com Arquivologia e Museologia • O objeto de estudo – archivalia/archivalization, mediação/criação, museal/musealização – relações que uma sociedade estabelece com o conhecimento que ela produz – interferências e institucionalização destas referências • Desafios contemporâneos – amplo acesso e ainda pouco uso efetivo e crítico (apropriação); diversidade e pluralidade identitária (versus concentração); material e imaterial; uso das tecnologias digitais; cidadania, transparência e accountability; avaliação crítica das escolhas realizadas (mediação)
7. Considerações finais O argumento do “quarto chinês”- Searle
Insuficiência da lógica cumulativa e transmissiva Terminada a última guerra mundial foi encontrada, num campo de concentração nazista, a seguinte mensagem dirigida aos professores: “Prezado professor, Sou sobrevivente de um campo de concentração. Meus olhos testemunharam o que nenhum homem deveria ver. Câmaras de gás construídas por engenheiros formados. Crianças envenenadas por médicos diplomados. Recém-nascidos mortos por enfermeiras treinadas. Mulheres e bebês fuzilados e queimados por graduados de colégios e universidades. Assim, tenho minhas suspeitas sobre a educação. Meu pedido é: ajude seus alunos a tornarem-se humanos. Seus esforços nunca deverão produzir monstros treinados ou psicopatas hábeis. Ler, escrever e aritmética só são importante para fazer nossas crianças mais humanas”. Saber utilizar as tecnologias não é apenas um problema técnico.
Insuficiência da lógica cumulativa e transmissiva “Como hoje em dia é extremamente limitada a possibilidade de mudar os pressupostos objetivos, isto é, sociais e políticos que geram tais acontecimentos, as tentativas de se contrapor à repetição de Auschwitz são impelidas necessariamente para o lado subjetivo (. . . ) A educação tem sentido unicamente como educação dirigida a uma auto-reflexão crítica” (ADORNO, 1995, p. 121) “É necessário contrapor-se a uma tal ausência de consciência, é preciso evitar que as pessoas golpeiem para os lados em refletir a respeito de si próprias” (Idem)
Calvino, A memória do mundo “De fato, é nisso que trabalhamos, e podemos dizer que estamos bem adiantados: não só o conteúdo das mais importantes bibliotecas do mundo, dos arquivos e dos museus, das coleções anuais dos jornais de cada país já está nas nossas fichas perfuradas, mas também uma documentação recolhida ad hoc, pessoa por pessoa, lugar por lugar” (p. 118) “Se na memória do mundo não há nada a corrigir, a única coisa que resta fazer é corrigir a realidade ali onde ela não coincide com a memória do mundo” (p. 124)
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